FÓRUM VINHOS DO ATLÂNTICO

Diálogos de Fronteira

Rumo à afirmação de uma identidade comum para os Vinhos do Atlântico do Noroeste

O Fórum “Vinhos do Atlântico – Diálogos de Fronteira”, realizado em Valença no âmbito da 3.ª edição dos Vinhos do Atlântico – Festa da Ribeira Minho, reuniu produtores, enólogos, investigadores e especialistas portugueses e galegos numa reflexão estratégica sobre a identidade, os desafios e as oportunidades dos vinhos de influência atlântica do Noroeste Ibérico.

Apesar da diversidade de perspetivas, emergiu um amplo consenso em torno da existência de um património vitivinícola comum entre a Galiza e a Região Demarcada dos Vinhos Verdes, assente em fatores naturais, históricos, culturais e humanos que contribuem para a singularidade destes vinhos no contexto europeu.

A influência atlântica não é uniforme: a importância dos fatores biogeográficos

Um dos aspetos mais debatidos foi a necessidade de definir com rigor os critérios que poderão sustentar o conceito de “Vinhos do Atlântico do Noroeste”.

Luís Cerdeira, da Soalheiro/Vinevinu, defendeu que a influência atlântica é gradativa e variável, destacando que a identidade atlântica dos vinhos depende da intensidade da influência oceânica, condicionada pela orografia, altitude e exposição às massas de ar marítimas. Neste contexto, salientou que os vinhos produzidos em áreas diretamente expostas à penetração das massas de ar marítimas apresentam uma expressão atlântica mais evidente do que aqueles que se desenvolvem em zonas protegidas por barreiras montanhosas. Esta posição encontra respaldo na própria caracterização técnica da sub-região de Monção e Melgaço, frequentemente descrita como possuindo um microclima singular, parcialmente protegido da influência direta do Atlântico, originando verões mais quentes e secos e uma maior componente continental. Afirmou que os vinhos de Valença são vinhos claramente atlânticos.

Deste modo, a discussão apontou para a necessidade de compreender os Vinhos do Atlântico não como uma delimitação administrativa rígida, mas como uma realidade territorial graduada, onde a influência oceânica varia em função da exposição ao Atlântico, da altitude, da orientação dos vales, da proximidade ao mar e da capacidade de penetração das massas de ar húmidas.

Um património genético e cultural partilhado entre Minho e Galiza

Outro dos consensos alcançados foi o reconhecimento da profunda continuidade histórica e cultural existente entre a Galiza e o Minho.

Os participantes sublinharam que este território constitui um dos mais importantes reservatórios de biodiversidade vitícola da Europa, concentrando um extraordinário património de castas autóctones adaptadas ao clima atlântico, entre as quais Alvarinho/Albariño, Loureiro/Loureira, Trajadura/Treixadura, Caiño, Vinhão, Espadeiro, Sousón ou Brancellao.

Foi igualmente destacado que a identidade destes vinhos não resulta apenas das castas, mas também de uma longa cultura de produção vínica partilhada, construída ao longo de séculos. As formas tradicionais de condução da vinha — ramadas, latadas, enforcados ou parrales —, os sistemas agrícolas de minifúndio, os conhecimentos transmitidos entre gerações e as práticas enológicas locais constituem elementos fundamentais deste património comum.

Vários intervenientes defenderam que a identidade atlântica não pode ser compreendida apenas através dos fatores naturais, mas também através da interação histórica entre as comunidades humanas e o território, numa lógica próxima do conceito internacional de terroir, entendido como a combinação entre natureza, cultura e conhecimento.

O enólogo como intérprete do terroir

Uma das reflexões mais interessantes do debate incidiu sobre o papel dos enólogos.

Constantino Ramos, responsável por projetos vínicos em várias regiões portuguesas de influência atlântica, enfatizou que o enólogo deve ser entendido como um verdadeiro intérprete do território.

Segundo esta perspetiva, a qualidade e autenticidade dos vinhos não dependem apenas da capacidade de compreender os fatores ambientais — clima, solo, relevo ou castas — mas também da sensibilidade para interpretar a cultura vínica específica de cada região.

O enólogo surge, assim, como uma espécie de “interprete” do terroir, responsável por traduzir em vinho não apenas as características físicas do território, mas também a sua história, identidade e memória coletiva.

Esta visão reforçou a ideia de que os Vinhos do Atlântico constituem uma construção simultaneamente natural e cultural.

A perceção do consumidor também ajuda a definir a identidade atlântica

José Martínez Juste trouxe para o debate uma perspetiva complementar, centrada na perceção do consumidor e na prova sensorial.

Segundo esta abordagem, a identidade atlântica também se manifesta através das características organoléticas frequentemente associadas a estes vinhos:

  • frescura;
  • acidez natural;
  • elegância;
  • leveza;
  • tensão;
  • perfil aromático expressivo;
  • mineralidade;
  • notas salinas ou marítimas.

Foi defendido que, independentemente das diferenças entre regiões, castas ou estilos de vinificação, existe um conjunto de atributos sensoriais que os consumidores e profissionais reconhecem frequentemente como associados aos vinhos de influência atlântica.

Desta forma, a definição dos Vinhos do Atlântico poderá resultar da convergência entre fatores geográficos, património cultural e perceção sensorial.

Uma identidade plural dentro do próprio território atlântico

A discussão demonstrou também que a identidade atlântica não implica uniformidade.

João Pereira, da Quinta das Pereirinhas, reiterou a identidade atlântica dos seus vinhos produzidos em Monção, sublinhando que as suas parcelas se localizam numa das zonas mais abertas do Vale do Minho, onde a influência oceânica continua a fazer-se sentir com intensidade.

Esta observação permitiu reforçar a ideia de que a influência atlântica varia significativamente dentro das próprias sub-regiões, sendo necessário considerar as especificidades locais e não apenas as classificações administrativas.

Uma visão semelhante foi partilhada por Emilio Iglesias, responsável por projetos vínicos nas denominações galegas de O Ribeiro e Rías Baixas.

Segundo o enólogo, ambas as regiões evidenciam uma clara matriz atlântica, apesar das diferenças existentes entre elas. Enquanto em Rías Baixas predomina uma influência marítima mais direta, O Ribeiro apresenta uma realidade de transição, onde o Atlântico continua presente, embora parcialmente moderado por fatores orográficos. A principal diferença entre os territórios manifesta-se frequentemente ao nível das castas predominantes, destacando-se o Albariño em Rías Baixas e a Treixadura em O Ribeiro.

 

Uma oportunidade estratégica para o futuro

O debate permitiu concluir que o conceito de “Vinhos do Atlântico do Noroeste” possui potencial para evoluir como uma plataforma de cooperação entre a Região Demarcada dos Vinhos Verdes e a Galiza.

Mais do que uma designação promocional, poderá constituir uma narrativa territorial agregadora, alicerçada em quatro grandes pilares:

  • fatores biogeográficos e climáticos;
  • património genético de castas autóctones;
  • cultura vitivinícola histórica partilhada;
  • perfil sensorial reconhecido pelos consumidores.

Num momento em que os mercados internacionais valorizam cada vez mais autenticidade, sustentabilidade, origem e singularidade, os participantes consideraram que os Vinhos do Atlântico do Noroeste dispõem de atributos distintivos suficientes para afirmar uma identidade própria no panorama vitivinícola mundial.

O Fórum terminou com a convicção de que o aprofundamento da cooperação entre produtores, investigadores, instituições e profissionais dos dois lados da fronteira poderá contribuir para reforçar a notoriedade internacional de um dos mais singulares terroirs atlânticos da Europa.

Vinhos do Atlântico do Noroeste afirmam potencial estratégico para conquistar mercados internacionais

A afirmação internacional dos Vinhos do Atlântico do Noroeste Ibérico esteve no centro da conferência apresentada por Bruno Almeida, da Barcos Wines, no Fórum “Vinhos do Atlântico – Diálogos de Fronteira”, realizado em Valença, na última sexta-feira, 5 de junho.
Perante uma audiência composta por produtores, enólogos, investigadores e profissionais do setor, o especialista defendeu que os territórios vitivinícolas atlânticos da Região dos Vinhos Verdes e da Galiza reúnem hoje condições particularmente propícias para reforçar a sua notoriedade e posicionamento nos mercados internacionais, beneficiando de tendências globais de consumo cada vez mais favoráveis aos vinhos de clima fresco e forte identidade territorial.

Um Corredor Atlântico Premium

Bruno Almeida integra os vinhos do Noroeste Ibérico numa rede global de regiões vínicas situadas no “Corredor Atlântico Premium”, posicionando ao lado de outras referências internacionais de influência atlântica que expressam atributos cada vez mais valorizados pelos consumidores: frescura, equilíbrio, mineralidade, salinidade e forte aptidão gastronómica.
Contudo, o Atlântico não produz um único tipo de vinho. A apresentação destacou a diversidade de terroirs atlânticos existentes no Noroeste Ibérico, cada um com identidade própria.
A arquitetura do clima fresco dos Vinhos Verdes
Na Região Demarcada dos Vinhos Verdes, Bruno Almeida destacou a singularidade do que designa por “Arquitetura do Clima Fresco”, procurando explicar como a combinação entre oceano, relevo, solos graníticos, alta pluviosidade e castas cria condições únicas para a produção de vinhos diferenciados. A influência marítima favorece maturações lentas e equilibradas, preservando níveis elevados de acidez natural e permitindo a formação de aromas intensos e elegantes.


Castas tradicionais como vantagem competitiva


Castas como Alvarinho, Loureiro, Trajadura, Caiño, Vinhão ou Sousón constituem o excecional património genético do Noroeste Ibérico, único na Europa, e um importante fator de diferenciação num mercado global cada vez mais orientado para a autenticidade.
Neste contexto, Bruno Almeida identificou particularmente o Alvarinho e o Loureiro como potenciais “pontas de lança” da internacionalização dos Vinhos do Atlântico. A qualidade, personalidade e reconhecimento crescente destas monocastas permitem posicionar a região em segmentos premium e abrir caminho para a valorização de outras castas e territórios.


Um “sweet spot” para os mercados internacionais


Bruno Almeida sublinhou que os Vinhos do Atlântico do Noroeste Ibérico ocupam atualmente um verdadeiro “sweet spot” do mercado mundial: os consumidores procuram cada vez mais vinhos frescos, sustentáveis e ligados a territórios autênticos. 
Segundo Bruno Almeida, muitos dos fatores que historicamente foram vistos como limitações produtivas — clima húmido, menor graduação alcoólica ou maturações mais lentas — transformaram-se hoje em vantagens competitivas nos mercados internacionais.
Por isso, é a exportação que permite libertar o verdadeiro valor do Atlântico, ao colocar estes vinhos perante consumidores que reconhecem e valorizam cada vez mais os atributos associados ao clima fresco e à identidade territorial.


Cooperação para criar valor


A conferência concluiu que a cooperação entre a Região dos Vinhos Verdes e a Galiza poderá desempenhar um papel determinante na afirmação internacional deste território. Bruno Almeida defende: “A Galiza reposicionou o Atlântico com sucesso global. O Noroeste português oferece o mesmo terroir de excelência com uma oportunidade de margem superior.”
A existência de uma matriz atlântica comum, alicerçada em condições naturais semelhantes, património genético partilhado, cultura vínica histórica e crescente reconhecimento internacional, oferece condições para a construção de uma narrativa conjunta capaz de reforçar a competitividade e notoriedade dos Vinhos do Atlântico do Noroeste.
A mensagem final foi clara: o futuro destes vinhos poderá passar pela capacidade de transformar uma identidade territorial singular numa marca de valor reconhecida nos principais mercados mundiais.